segunda-feira, 23 de abril de 2012

a minha vida [quase] sem mim - esta és tu. quem vai dizer? tu...

entrei numa livraria (...) as palavras começam a estar quase todas ditas e quase nada reditas e podem inventá-las de novo que tudo voltará a quase repetir-se | um dia atrás de um quase dia. uma palavra atrás de uma quase palavra | aquela frase atrás daquela quase frase | atrás da porta e por dentro de uma janela quase via a casa toda | também tem dias que não vejo quase nada | que nem me vejo quase a mim | cada um lê o que consegue ler | quase me repito | quase me afasto | quase volto | como quando | quase sinto o que outro sente e não o sinto | o quase não sente | como quando penso como fosse implicada, quase num livro | como quando percebo, como fosse exposta | quase numa imagem | isto das associações... podia sublinhar: a experiência de vida | quase de cada um | sem precisar de dizer muito diz-se | quase nada e quase tudo | passo à frente, pego num livro, lembro-me de um filme | as reticências, os parêntesis retos, são a quase maneira do que é a disfunção gestual | mental da escrita e/ou da voz | aqui e agora, quase, não tenho de me preocupar com o entendimento |
quando me preocupo dói-me o peito, não respiro, o cérebro serpenteando o veneno | de quem diz que não percebe nada. não se trata de perceber, um abraço, é um quase entendimento - o compreender a dificuldade da expressão, a ansiedade e a timidez perante o tempo que se vai | por favor, sem ouvir, "tem calma"... os ritmos estão no seu tempo próprio | sem precisar de correr ou esperar, passamos para a frente, mesmo que seja de costas, de lado,de braços abertos, nariz empinado, de cabeça para baixo ou sem cabeça nenhuma | temos um tempo de vida, e já foi quase vivido | somos, quase todos, de outra matéria também, a da pele e osso, do coração e do sangue | somos terra, fogo, ar e água. como sorrisos e lágrimas, de uma quase mistura disforme e vibrante, somos cinzas e cubos de gelo, somos rochas e ventos [onde se entrelaçam dedos suaves e olhares brilhantes com pensamentos complexos e emoções viscerais] somos, quase ninguém, de outro espírito também, ressoam ainda, bolhas de ar, salpicos, uma luz negra, azul | somos o liquido amniótico em que submergimos, flutuamos e sossegamos, de uma quase onda aquática | somos a música, as palavras, de qualquer coisa quase mágica [onde se tocam até as orelhas frias da gata nas minhas orelhas frias] sem me preocupar com o entendimento do quase silêncio oco dos que calam o ruído dos silêncios que têm dentro, dos que leem e não leem, dos que escrevem e não escrevem tudo e nada do que são, como quem fecha um livro e depois o deixa à chuva. esquecido de si | apenas, como quase, o que escrevo/digo para os que compreendem os abraços, de olhos molhados e das rugas ao lado da boca a arrebitar para os secar | por isso, eu prefiro, por fim, o quase silêncio das livrarias | dos livros para tocar, folhear, e das pessoas que lhes pegam com cuidado, comentando, em qualquer linguagem mesmo a das lágrimas e dos sorrisos | quase penso e quase sinto que podia ser eu... no entanto, eu sou esta que quase podias ser tu

© cristina de oalves



"Todas esas cosas que dicen los libros que no has leído. Esta eres tú. ¿Quién lo iba a decir? Tú..."