apresentação

Preciso de poesia, sobretudo daquela feita de rostos e da vida que acontece. Amo os acasos e as palavras que os encontram. E deliro até com palavras que, ao acaso, nos são todo um sentido de muitos.
Nos dias de estar recolhida, dependendo das estações, aprecio a neblina do mar ou do rio que entra pela cidade de manhã cedo, mas também aprecio o silêncio da luz e da sombra, quando retorno a casa ao final da tarde. Gosto de imagens onde me sinto estar, mas também do imaginário da contemplação e dos instantes que ousam ser mais do que um momento. Também tenho um especial gosto por livros, cadernos e o cheiro-toque a papel. À noite tenho saudades do amor que não conheço, e depois sonho.

A propósito de sonhos e de sentidos únicos, de onde venho e para onde vou...  tenho em mim o cheiro das viagens, como não querer viajar?! Nasci em Moçambique e passados 4 anos vim para Portugal, acabei por ficar no Porto. Também já vivi e estudei em Barcelona. Tempo de que guardo ricas lembranças, em português, castelhano e catalão. De vez em quando sonho que vivo noutros lugares, vá-se lá entender os sonhos, e já tive a sensação de ter estar em sítios onde talvez não tivesse estado.

Quem sabe ainda um dia, para sossegar os sonhos, vá viver junto à praia, a ouvir os recados que me trazem as ondas e a admirar todos os dias o nascer e o pôr do sol, umas vezes mais cedo irei vê-lo elevar-se nas montanhas e mais tarde a descer ao mar. Ou talvez vá antes viver para uma casa de pedra, entre árvores e chilreios, onde ecoa o som suave de uma fonte, o cheiro a verde e a terra e eu de braços abertos entre os frutos.


Madame Zine | anotações Julho | 2013
in escrito fotográfico: cristina de oalves

"porque
todo o lugar é o limiar do mundo, janela de sacada que dá para a obra da paisagem; entre mim e ela há ainda uma mesa redonda - vermelha -, e duas cadeiras de jardim; o meu universo preferido, ... é a certeza da paisagem para além do limiar; e o mergulho ocular em certas cores trazidas da matéria; o castanho - da madeira; o vermelho - do ferro; o verde - das plantas; o rosa - de uma emoção forte de suavidade.
São as cores em que a composição me é quase espontânea; juntas à sombra,
constituem a visão.
O azul excluído, é a cor única da nossa Comunidade final ______ já sem caminho.
Assim, as cores também rompem os limites do nosso nome. «Em face», é uma expressão que deixo cair muitas vezes - em face ____________ simetricamente, raio a raio, fronte contra fronte. Tenho a reminiscência do primeiro pensamento verdadeiro ___________ em que uma rapariga, totalmente de ler e de sentir, vestiu _____ com uma couraça de linguagem flexível e viva - direta - o falcão que temia a impostura do olhar."
de Maria Gabriela Llnasol, in O raio sobre o lápis

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porque todo o momento é relativo, uma espera diante do relógio, um encontro, um desencontro, um promessa quebrada, uma procura não escutada - então repetimos já esquecidos.



fotografia: Albert Lamorisse

fronteiras, forças, temor e anjos ___________
Identificar as próprias forças, não as destrinçar das restantes que não nos pertencem. Hoje não há linha de frente, nem massas de manobras inimigas identificáveis; nem posições fixas. A fronteira desloca-se de hora a hora. Erraticamente. Escrevi há dias que a presença angélica é de louvor e de temor. Muitos dos que eu encontro têm a noção desta presença angélica, embora por razões que eu não alcanço, só dela captem a vertente da identidade, quando seria possível, creio,
trabalhar o reflexo: em vez de fugir do temor, acolher o louvor e a beleza. Apoiar-se na força do anjo como vejo fazer no judo, no surf e em alguns dos ditos desportos radicais.
de Maria Gabriela Llansol, in Inquérito às quatro confidências

I got sunburnt waiting for the jets to land
circus people with hairy little hands
come on boys strike up the army band
I got sunburnt waiting for the jets

how do you feel?
how do you feel?
I can't seem to see through solid marble eyes

fiery pianos wash up on a foggy coast
squeaky old organs have given up the ghost
fire them up and kill the pianobirds
there's creaky old organs burning on the coast

how do you feel?
how do you feel?
I can't seem to breath with a rusted metal heart
I can't seem to see through solid marble eyes


"_____________ eu pensava ter outra compreensão do mundo,
e não queria nunca, de forma alguma, dispô-la sobre um plano metafísico. Não desejo pensar conceitos mas fazer nós voláteis de imagens, pensamentos, fascínios e sinais que me permitam, hoje,
caminhar e gostar do meu caminho, mudam todos os dias os querubins que aparecem dançando na cena do texto; o seu canto de louvor é sempre de louvor, de temor e de beleza, mas nunca é igual; e, no entanto, não entendo de angeologia. Escrevo, e tantas vezes falo de texto e de afecto
(que chega a ser irritante)"
de Maria Gabriela Llansol, in Inquérito às quatro confidências, Relógio d'água,1996





Madame Zine | Notas de Rodapé | 2013
"a tua vida

será feita de embarcações e de solidão
beberás a secura dos cabos distantes
conhecerás ilhas de saliva profunda
olhar-te-ás nas fotografias
que as unhas aceradas do tempo arranharam"
de Al Berto


[ Z i N e ] 

A zine (/ˈziːn/ zeen; an abbreviation of fanzine, or magazine) is most commonly a small circulation self-published work of original or appropriated texts and images usually reproduced via photocopier.
A popular definition includes that circulation must be 1,000 or less, although in practice the significant majority are produced in editions of less than 100, and profit is not the primary intent of publication.
Zines are written in a variety of formats, from computer-printed text to comics to handwritten text (an example being the hardcore punk zine Cometbus). Print remains the most popular zine format, usually photo-copied with a small circulation. Topics covered are broad, including fanfiction, politics, art and design, ephemera, personal journals, social theory, single topic obsession, or sexual content far enough outside of the mainstream to be prohibitive of inclusion in more traditional media. The time and materials necessary to create a zine are seldom matched by revenue from sale of zines.
Small circulation zines are often not explicitly copyrighted and there is a strong belief among many zine creators that the material within should be freely distributed. In recent years a number of photocopied zines have risen to prominence or professional status and have found wide bookstore and online distribution.