quinta-feira, 26 de julho de 2012

a ruína da paisagem...

A paisagem prolonga-se em S de flores azuladas
ela entrou em ruínas
junto ao ângulo penumbroso da casa destruída
está vestida de branco quando ele lhe fala
ambos têm o olhar vago

ela recorta-se sobre um fundo de árvores nuas
ele está de pé encostado a um muro de pedra
ouve-se alguém dizer: não tenhas medo
somos apenas actores dum sonho paralelo à paisagem

os lábios dela tremem ou sorriem
ele encolhe-se mais contra a parede
o silêncio ainda não os abandonou

ela espreita-o
ele desenha-se exacto no centro do écran
(de novo uma voz off)
um vento adere à casa

onde as raízes dos cardos irrompem dos alicerces
e quando ela se vira para o interior das ruínas
prende-se-lhe o olhar num ponto inexistente

ele já ali não está
apenas a objectiva da câmara continua a segui-la.

de Al Berto, Vigílias


in fotografia: © cristina de oalves