sexta-feira, 2 de agosto de 2013

III Viagens do ano chinês, dedicado a Hu-Tora

Cenas de um espaço imaginário – cenografia de um drama de ficção científica (pode ser de um futuro qualquer)
Uma taça com águas marinhas, brilham azuis, numa sala observada atrás de uma porta de vidro fosco. Dois seres. O cheiro a terra, a canela e a romance, não sei porquê. Um tapete de tigre, antes da entrada. Um lugar sem sentido para dar sentido a um pensamento que fico à escuta. Do lado de lá imagino uma viagem interestrelar, serão os tons azulados e os contrastes da escuridão, e dois rostos, rubis, entre a raiva, a timidez e o desejo pressentido, apenas sombra. No ar sentem-se todas as dificuldades de uma entrega. O vácuo quase total, radiados dedos, a imponderabilidade do amanhã. Atento os pedaços muito pequenos de matéria memória, da pele, dos cabelos, que permanecem na casa, anos a vaguear, e que são encontrados no espaço. Já não sei se falo de mim, de ti, se do que ouço atrás da porta. Agora por exemplo, se algo escuto, é em ti que penso. Fragmentos de ti que passam muito próximos de um corpo celeste que possui atmosfera. Haverá um momento justo em que te vaporizas. O Sistema Solar, a Lua, Marte e todas as viagens interestrelares teriam distâncias quantas vezes maiores à nossa distância e contudo correm mais rápido no tempo em estado gasoso. Depois de anos de estudo... Estudo que prossegue. Dou-me conta de estar sentada numa velha escrivaninha de sonhos, a fazer contas. As distâncias astronómicas são por vezes medidas segundo a quantidade de tempo que demora um raio de luz a viajar entre dois pontos. Mas chega de falar de nós. Afinal era eu atrás da porta.
Eu recebo, alimento a renovação, reformulo. Eu vivo o paradoxo delicioso. O universo é um todo, começa e não acaba. Também eu no plano do infinito ajusto fugas novas – não por falta de coragem mas por desafio, não me servem as meias verdades. Eu sou o difícil, a mudança também dos outros, e tento o que ninguém jamais tentou. Eu danço à música da vida, aos passeios de carrossel. Observem as cores inumeráveis e as luzes cintilantes. A minha inquietação maior é o Universo e o nosso crescimento paralelo. A luz de uma estrela alcança-nos milhões de anos depois de a estrela já ter desaparecido.
Olho em volta. Já não havia casa.

escrito & fotografia: © cristina de oalves