Uma taça com águas marinhas, brilham azuis, numa sala observada atrás de uma porta de vidro fosco. Dois seres. O cheiro a terra, a canela e a romance, não sei porquê. Um tapete de tigre, antes da entrada. Um lugar sem sentido para dar sentido a um pensamento que fico à escuta. Do lado de lá imagino uma viagem interestrelar, serão os tons azulados e os contrastes da escuridão, e dois rostos, rubis, entre a raiva, a timidez e o desejo pressentido, apenas sombra. No ar sentem-se todas as dificuldades de uma entrega. O vácuo quase total, radiados dedos, a imponderabilidade do amanhã. Atento os pedaços muito pequenos de matéria memória, da pele, dos cabelos, que permanecem na casa, anos a vaguear, e que são encontrados no espaço. Já não sei se falo de mim, de ti, se do que ouço atrás da porta. Agora por exemplo, se algo escuto, é em ti que penso. Fragmentos de ti que passam muito próximos de um corpo celeste que possui atmosfera. Haverá um momento justo em que te vaporizas. O Sistema Solar, a Lua, Marte e todas as viagens interestrelares teriam distâncias quantas vezes maiores à nossa distância e contudo correm mais rápido no tempo em estado gasoso. Depois de anos de estudo... Estudo que prossegue. Dou-me conta de estar sentada numa velha escrivaninha de sonhos, a fazer contas. As distâncias astronómicas são por vezes medidas segundo a quantidade de tempo que demora um raio de luz a viajar entre dois pontos. Mas chega de falar de nós. Afinal era eu atrás da porta.
Eu recebo, alimento a renovação, reformulo. Eu vivo o paradoxo delicioso. O universo é um todo, começa e não acaba. Também eu no plano do infinito ajusto fugas novas – não por falta de coragem mas por desafio, não me servem as meias verdades. Eu sou o difícil, a mudança também dos outros, e tento o que ninguém jamais tentou. Eu danço à música da vida, aos passeios de carrossel. Observem as cores inumeráveis e as luzes cintilantes. A minha inquietação maior é o Universo e o nosso crescimento paralelo. A luz de uma estrela alcança-nos milhões de anos depois de a estrela já ter desaparecido.
Olho em volta. Já não havia casa.
escrito & fotografia: © cristina de oalves