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abri mão ficar de pé
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atrás de um número de porta e de um código postal “aqui jaz”, lê-se a ferida de uma queda, entreparedes de cimento e betão armado | atualizados por um tempo que lhes dá realidade própria e os constrói | são tudo e nada | um estado de coisas que faz com que sejam e não sejam | um estado vivido que faz com que aconteçam e não aconteçam | um plano de ser onde não estão | como seres vivos | mas apenas alguns sobreviventes se arrastam pelos destroços na esperança que haja ar e paisagens verdes | é tudo longe e tudo perda | pedras cinzentas e frias, pedras cortadas, arranhadas, feridas duras | as cidades prostitutas | os homens e as mulheres moribundos | manequins virtuosos | paleio em ruínas de histórias sobrepostas | à espera da hora certa, da altura certa, da medida certa | e na promiscuidade dos isolamentos mal vedados | como os bens mudam de mãos bem como as ideias mudam também os prazeres dos mal amanhados | e ficam uns trocos que não chegam para alimentar o silêncio vazio de tudo a precisar de sorver tudo | no cheiro da morte viva em redor | no sorriso artificial dos passeantes | as cidades toxicológicas de consumo material | do corpo, animal sem alma, mancebo insaciável | das obscenas toneladas de experiências | expostas em vitrines à vista da normalidade sem esperança | o transcendente e a morte coincidem no desconhecido que não se vê | a vida, inominada, é pouco mais que uma anedota, um poema, um documento | um papel amarelo etiquetado pelo tempo que foi ainda ontem
© cristina de oalves
imagem (fotografias): Jolande des Bouvrie, "big bisou" e "jambes de l'air"

