As minhas duas vozes e o centro.
Se eu fosse una deixaria os prefixos e
as derivações
e no mesmo sentido o desvio -
porque negaria o peso, a melancolia, a tristeza do que não passa,
e não seria mais triste por isso.
Desconhecia o que há-de vir,
Se eu fosse una não teria lugar para ti
e no mesmo sentido não
nos cruzaríamos - porque não olharia em volta a paisagem, nem dentro o
sonho
e não seria menos horizonte por isso.
Desconhecia outras possibilidades.
Mas isto agora é tarde e já te conheço.
Somos possíveis.
Sinto que falo como tu falas e escreves como eu penso
por isso se fosse para um lugar
qualquer
não levaria palavras ditas nem poemas
para escrever - não queria desconversa em cima dos ombros.
Não seria um lugar qualquer por não ser
lugar mas por não lhe saber o nome antes de lá chegar
seria uma livre escolha, um
bilhete livre, numa mão livre, num pensamento mais livre ainda.
Seria eu sem linguagem verbal, sem
figuras de estilo, sem as malditas e as bem vindas
Tudo seria novo em mim como se
(re)nascesse
a realidade seria também de uma outra
ordem
na desordem de mim e do mundo - só
atendia a imagens de alma pura e a músicas de ouvido.
Excluía os retratos ao espelho e os
rostos de perfil
Fixaria os olhos e as bocas
Sim, porque quando se revelam as almas
fazem-no à transparência e à boca sussurrada
Se eu fosse livre como tal alinhava de
vez os astros e as minhas vozes
E chegaria a ti e seria eu.
© cristina de oalves
