tento dizer espera e nada pára aqui
além
não me pertenço ao tempo
como se não me existisse mais do que um perfil
rosto face decomposto
corpo a corpo
tropeço pelas emoções dos pés
esvaem-se passeantes
passos a passo
uns pelas mãos se entendem dedos solitários
um a um por cada letra juntos
e fazem-me doer o pulso
tantas gentes
e tanta falta de nos dizermos
enquanto estico o braço para me esquecer do que vi
e os joelhos tremem o adeus do que não vou vendo
quando me espreito para o lado de fora
do incerto da palavra sedução à procura de pensamentos
ou dos pensamentos no seu caminhar incerto pelas frases sedutoras
desalinho o percurso
percorro
trespassa [me]
de metal reluzente ou de estradas difusas
tanto me faz onde me deixa
esse nó de frio que divaga quente longe do ar que respiram
as palavras que se arrastam boca
entreaberta pela noite
a saber ao sonho mais áspero da solidão
o de não me existir outro tempo que não este
o de um texto incerto num olhar perdido
imune à sofreguidão das palavras e dos pensamentos por dizer
descompassados do que nos resta
fechada a boca e dilatada a alma
parece [me]
que já nada seduz
a morte de um poema
© cristina de oalves
imagem (fotografias): Paul B Goode Dance Photography, Performance of Trainor Dance's "Freefall"

