quinta-feira, 1 de maio de 2014

fechei os olhos para ouvir o som dos pensamentos na água __________________
despe-te. desnuda a alma que invariavelmente podes nem ter. então, deixa o que tens e o que não tens não agarres. circula a respiração e o olhar dentro e fora do diafragma. inspira e expira. abre os pulmões e lê-te como se fosses outro ar | há pensamentos líquidos 
por saber [não] escrever
a escorrerem-me pelos dedos.
e escrevo-me de uma outra maneira
quando mergulho a suster o tempo do ser
na poesia quando escrevemos eu podes ser tu, ele, ela e ainda plural
podemos ser [sim]
um espaço em branco
ou
mil e uma formas de uma vida indefinida
uma noite acesa pelas luzes tremeluzentes
________ a percorrer a cidade num outro dia.

e
há gente que fala sem que eu ouça
há gente que não fala para mim
e
há gente que fala por mim.

na poesia encontramo-nos todos
para nos falarmos uns com outros
sem hora certa
e se nos falta às vezes um personagem,
um nome,
um indicador que aponta o nu,
o corpo de um texto translúcido,
tomamos-nos por sê-lo
sentimos-nos como se fossemos
a palavra que não nos desiste na luta
e ela | a água
o paradoxo do que não acaba até quando se cala,
mais uma frase
e mais uma.
um ponto final remete a qualquer coisa
de fim e de princípio da [des]ordem do pensamento | as ondas
também não se param, mas sim propagam-se

© cristina de oalves
imagem (fotografia): in The Wapping Project - Deborah Turbeville