segunda-feira, 9 de junho de 2014

sentei-me ao lado da palavra. o rosto pousado no pulso em frente à janela e um dia branco lá fora. sinto que a escrita muita vezes é calada pelo corpo todo. o dizer nada quando não se consegue dizer tudo é uma boca em desassossego a germinar no peito. sentei-me, sossegada a ouvi-la. sente-se só, sem se queixar, sofre-se, e não é apenas uma, é uma a mais, uma a menos. tenho-a deixado andar por aí, ao meu lado, entre outras palavras, sem a sentir comigo e sobretudo sem a deixar sentir-me por dentro.

e ela aqui está. sem data. sem ser uma palavra qualquer. não voltou atrás no tempo. também não voltou sequer dois passos à frente. pousou num abraço e despiu-se de pressas e de retratos de memórias. acordou com vontade de beijos. não doeu nada. nem pensou mais nada. nem pediu atenção.

e eu aqui estou, fiquei com ela nos braços como se a dispusesse em ternura. como se estivesse fora do rosto no batimento cardíaco do pulso. e esperei. esperei que acordasse. e sobretudo esperei sentir que ainda a guardo viva no silêncio, que sou sua, tal como nela, permaneço, palavra.

existe um relógio na casa. existe um tempo a pedir tempo. há quem se escreva todos os dias e no abstrato dos outros e/ou dos que hão-de surgir de si | há quem traga palavras numa escrita livre e solta e as reclame ou devolva | companhia | cumplicidade | solidão... eu não escrevo todos os dias ainda que haja sempre palavras em mim | mas nem sempre a escrita me escreve. nem sempre sou escrita. nem sempre sou uma palavra a dizer. hoje, por exemplo, apenas sou o ritmo deste texto enquanto espero por ti.



© cristina de oalves

imagem (fotografia): Frank Horvat, La Maison aux Quinze Clés Series Undated.