O que me trouxe aqui é o filme do ano, não faço ideia, 2020 em si parece um filme, e vi muitos, deve ter sido o ano que mais filmes vi, a grande maioria no TVCine e alguns no computador, pelo que em geral são filmes que não são deste ano.
Há contudo um, vi esta semana que passou e, ao pesquisar, descobri ser de 2020! Bom, não sou critica de cinema, estes meus apontamentos são essencialmente para mim, para registos futuros, para me ajudarem em termos de memória, que é fraca. E talvez coincida eu escolher o filme do ano por estar próximo do final do ano, de facto não fiz nenhuma lista, não apontei outros que vi, e teria agora de estar a tentar rever o que lá vai, incluindo ter de passar mentalmente por certos meses, semanas, dias, de um ano que não foi nada fácil, e ainda não lhe vejo o fim apesar de temporalmente faltarem poucos dias no calendário. Assim sendo, ultrapassadas as vicissitudes de uma simples analogia à escolha do filme do ano, no final de ano, tenho apenas de admitir que esta malta da indústria cinematográfica também deve saber que não sou só eu a lembrar-me de querer registar o filme do ano quando chega ao fim do ano.... e portanto, coincidência ou não, é um filme que tem a ver com a "época" - pela relação com os recomeços, as escolhas, as mudanças, a incógnita energia que se gasta e a que se ganha em termos pessoais nestes processos de transformação. sem não sabermos bem para onde vamos e mais complicado ainda, sem sabermos, por vezes, em que ponto estamos.
Chama-se precisamente "Endings, Beginnings" ((Re)começos, em tradução portuguesa), realizado por Drake Doremus, de quem já vi outros filmes, se calhar este ano... Zoe (2018) (Realizador, Argumentista) e Um Novo Fôlego / Breathe In (2013) (Realizador, Argumentista). Nenhum destes achei extraordinário, mas têm de facto a qualidade da junção do realizador-argumentista, ou seja, a forma como os diálogos acontecem é fluída, natural, ao ponto da máquina de filmar não ter medo de se aproximar demasiado, o que cria mais intimidade, mais proximidade com a expressão, o olhar, os gestos, sentimo-nos fazer parte, mesmo que no caso desses dois filmes não exista em mim grande proximidade com os temas em si, estamos lá, com o que sentem e o que pensam os personagens, gosto disso num filme, mais gosto se para além disso me provocar sensações, de cheiros, de cores, de texturas, de sabores, mas não, não chegam a tanto esses filmes do Drake Doremus...
O Endings, Beginnings talvez consiga um bocadinho essa intensidade, pela textura da luz sobretudo, e há qualquer particularidade também no movimento da máquina de filmar, que tem uma relação com aquele olhar em viagem, de que sinto falta, quando estamos a olhar e a pensar e sentimos uma sintonia entre uma coisa e outra e percebemos aquela expressão "para onde vão os pensamentos", se olharmos o horizonte, ou "para onde voam", se olharmos o céu. Gostei da naturalidade dos atores, gostei das cores do filme, da sensação de imagem analógica, mais física, capaz de dar mais consistência ao imaterial dos sentimentos, dos pensamentos, gostei muito da voz que narra, sim, faz parte daquela lista de filmes que gosto especialmente, onde há um narrador, mas neste caso é a própria personagem principal, o que ainda gosto mais, e adorei o desfasamento entre o falar dos personagens e a imagem, pensei que não deve ser uma coisa fácil de fazer com que resulte bem, mas estava bem encadeado, não confundia, pelo contrário, acrescia proximidade como se fosse uma conversa que ouvíssemos e a dada altura estamos atentos a ver quem fala e a observar os seus gestos e expressões, mesmo que se perca uma parte do que o outro está a dizer, e acontece-me muito. A história em si não achei extraordinária, houve pormenores que não gostei, as cores e o tipo de fonte das mensagens de telemóvel que apareciam no ecrã por exemplo, as pinturas nos bules achei desnecessárias e feias, foi como se estas fossem indicações de que o filme poderia vir a ser um bom filme, mas ainda não estava mesmo lá. Tal como é o que sinto em relação a este ano que vem, espero que possa vir a ser um bom ano, mas para já ainda há apontamentos a melhorar, ainda há certos resquícios de anos anteriores a limpar, a arrumar, a dar um outro brilho, o que vem não se sabe, mas pelo menos sabe-se o que se leva e sobre isso há ainda muito a fazer para o que vier se for bom possa ser devidamente aproveitado e o que for mau não tenha demasiado impacto.
Como escolher um só filme do ano quando este ano vi tantos... ok, tenho ainda outros três que não posso deixar passar, estes sem grande esforço de memória:
Começo por referir um filme francês-tunisino (árabe), título original: Arab Blues (Antidepressivo Árabe), de: Manele Labidi Labbé, com: Golshifteh Farahani, Majd Mastoura, Aïsha Ben Miled, de 2018. Uma atriz incrível, uma história fantástica, atores que podem nem ser atores, e não me lembro qual era o local da Tunisia no filme, mas lembro-me que quando visitei a Tunisia gostei mais do que Marrocos, onde tinha estado poucos anos antes, apesar de ter o mesmo impacto de "terra seca", fazer vingar algo naqueles sítios não é fácil e o filme transmite isso muito bem.
Outro filme de que gostei bastante, sim francês, título original: Hors normes (Especiais), de: Olivier Nakache, Éric Toledano, com: Vincent Cassel, Reda Kateb, Hélène Vincent, de 2019. E vai um copypaste do resumo do cartaz: "Há mais de duas décadas que Bruno e Malik se dedicam de corpo e alma a reintegrar crianças e adolescentes com vários graus de autismo. Cada um gere a sua organização e tenta, de todos os modos possíveis, acolher jovens que por qualquer motivo tenham sido recusados por outras instituições. A sua luta é difícil e há momentos em que poucas forças lhes restam para enfrentar tantas adversidades." Em competição no Festival de Cannes, este filme é dos franceses Olivier Nakache e Éric Toledano (dupla também responsável por por "Amigos Improváveis", "Samba" e "O Espírito da Festa"), no duplo papel de realizadores e argumentistas. Um filme-documentário, que não sei porquê incluem no género comédia, mas isso acontece com imensos filmes, um dia destes investigo porquê.
E por fim, Where'd You Go, Bernadette (Onde estás tu, Bernadette?), de: Richard Linklater, com: Cate Blanchett, Kristen Wiig, Judy Greer, de 2019. Um filme que também retratar alguém "especial". Sendo o realizador Richard Linklater ("Antes do Amanhecer", "Antes do Anoitecer" e "Antes da Meia-Noite", "Boyhood: Momentos de Uma Vida"), que adapta a obra homónima escrita, em 2012, pela romancista e argumentista norte-americana Maria Semple, não se esperaria que o filme não fosse focado em alguém ligado às artes, neste caso à arquitetura, mas é a Cate Blanchett, para mim uma das melhores atrizes de sempre, que dá o corpo e a alma a todo o filme.



