"Gabrielle" (Marion Cotillard) no filme Mal de pierres, de Nicole Garcia (2016)
Aqui está um filme que se forem pesquisar críticas a maioria é a falar mal, pelo menos as que vi assim eram, e contudo eu gostei do filme. Não costumo dar pontuação, o que não me permite ter o arquivo mais arrumado (nunca senti essa necessidade porque em boa verdade nunca volto a ver o que partilhei outrora, não vejo grande utilidade a não ser pontualmente). Bom, também não sou organizada a explicar-me, então, se desse pontuação seria 5*.
A característica que mais gostei é precisamente uma das críticas negativas que li, trata-se da forma como o tempo é "contado" e como se "desenrola". Não segue uma estrutura linear, uma sequência narrativa, sequer de flashback "normal", funciona muito como o tempo dos pensamentos / sentimentos dentro da nossa cabeça, ou dentro da minha pelo menos, o passado é livre de se juntar ao presente e o presente é o passado quando coincide, para ser sincera, a não ser que pense em acontecimentos, o tempo dentro do pensamento ou dos sentimentos não existe. A necessidade do tempo só a sinto quando exponho o que penso, quando se dá uma exteriorização. Antes disso são sobretudo pedaços soltos que se colam, ou se juntam, por força da energia dinâmica própria dos pensamentos ou dos sentimentos em si. Mas no caso da personagem Gabrielle percebe-se isso, que esses pedaços interiores surgem de forma muito impulsiva estranhamente ligados à intensidade do olhar e dos pensar / sentir, trazem em si uma mistura do desejo e da lembrança/memória, e são físicos e não apenas psicológicos. Portanto existe neste filme e através desta personagem uma capacidade de expor um tempo sem tempo, onde o físico (associado ao tempo) se mescla com o psicológico (associado ao pensamento / sentimento). Aliás no filme a alusão de que o psicológico se repercute no físico e o físico no psicológico é uma constante. E talvez venha daí essa forma peculiar de tratar o tempo e o espaço e o(s) seu(s) percurso(s).
Quando ela vai no carro, com o olhar evadido pela janela, entre os pensamentos e uma tristeza, uma solidão, ou simplesmente em jeito de distração, talvez à procura de referências, e de repente surge o nome da rua, foi tão rápida a sair do carro que voltei o filme atrás, porque de repente ela já está fora a dizer que vai lá ter e é tal a determinação que é como se o momento da surpresa, de ver o nome da rua, colidisse com um reconhecimento anterior, como se ela já soubesse. Eu, de fora, demorei mais tempo a perceber esta fusão entre o acaso e a decisão. Como se ambos já lá estivessem. Sem dúvida nela ambos misturam-se.
O próprio título do filme e a maneira como foi traduzido, pode ser outro o motivo do tradutor, mas acaba por sublinhar essa premissa do filme, da mistura entre o físico e o psicológico, entre o que exalamos para fora e o que vai dentro. O "Mal de pierres" refere-se a uma doença física de que Gabrielle sofre, e "Instante de amor" refere-se ao momento psicológico em que ela sente que finalmente o amor acontece. E a meu ver há dois momentos, que depois afinal são um só, um quando ela se apaixona pelo tenente, André, e outro quando ela se apaixona pelo marido, José, os dois fazem parte de uma mesma força enigmática que está nela, no momento em que se dá ao outro psicologicamente, nesse instante em que ela o reconhece reconhece-se a si, ao que sente, o olhar entrega-se, para mim é até este O Instante, o momento, uma vez que concentra o outro. Et voilá, o que sentimos espelha-se no físico e o físico é um espelho do que sentimos.
Li numa crítica que a Marion Cotillard (Gabrielle) neste filme é como champanhe servido num copo de plástico... ui... sim, talvez seja demasiada beleza, sempre muito bem arranjada, ótimas roupas e calçado, para quem vive no campo e é mulher de um marido pedreiro, embora provenha de uma familia com posses não deixava de ser do campo... sim... é verdade... e anos 40/50... ainda assim não é coisa que me tenha feito distrair ou dar menos valor ao filme. E para além disso todo o filme é assim, não é só a Gabrielle, o marido José, também ele uma delicadeza fora de comum para o estereotipo da profissão e da vida no campo, até a única vez que se enfureceu a forma como lhe pegou na cara, duvido que fosse/seja assim... e quando ela tentou entrar no mar... a forma como os dois se debatem é também de uma delicadeza fluída, parece quase uma dança, mas mesmo assim não deixa de mostrar o ímpeto dela e a força dele, e é isto, o facto de uma realizadora dar um cunho mais artístico ao filme, forçando certos contextos espacio-temporais, ultrapassando certos estereótipos, não torna necessariamente o filme mau ou fraco, pode até estar precisamente aí o seu caráter, a sua personalidade original, e uma das suas qualidades especialmente boas.
Pelos vistos o filme é a adaptação de um livro, com o mesmo nome, de uma escritora que se chama Milena Agus. No livro a história é passada na Sardenha e não na Provença francesa (como no filme) e durante a Segunda Guerra Mundial e não na Guerra da Indochina (como no filme), mas também não me fez grande diferença isso, apesar de que em algumas críticas ser mais uma apontada como negativa, eu nem sequer li o livro, não sabia, mas fiquei curiosa e fui pesquisar. Quanto à história do livro, Gabrielle, é uma jovem que se cortava e agredia fisicamente (isto não aparece no filme) e também escrevia poemas eróticos (sobre isto há a sugestão no filme, nas cartas que ela enviava ao Tenente, ainda assim podia ser mais notória a parte do erotismo, que não surge propriamente aí, mas noutras cenas, por exemplo quando ela se vai refrescar ao rio sem cuecas, ou quando se põem nua diante dos trabalhadores do campo, à janela do seu quarto), pelo que de alguma maneira existe no livro e no filme uma abordagem a transtornos de personalidade, não de um ponto de vista médico ou científico, não do ponto de vista da moral, mas na perspetiva do "documentário pessoal", de filmar alguém que sofre de perturbações complexas e a partir de si um olhar interior e exterior também de quem convive.
Eu sei pouco destes transtornos, leio por curiosidade, nem o filme aprofunda, no fundo, é sobre o olhar de quem vive e sente, e que normalmente não sabe explicar nem percebe o que sente, porque só o sentir já ocupa imenso espaço mental e físico.
E é lindo o olhar final da Gabrielle ao José, comove a comoção de quem naquele momento percebe pelo sentir que ele afinal estava ali, naquele instante, e ela ali, naquele lugar, numa imensidão de vida que ainda não tinha sido admirada, e sobretudo inflamada de desejo, ela que fazia parte, daquela mesma vida vivida, cheia, intensa, carregada de amor e de emoção, ele que a tinha feito tudo suportar e tudo viver, em pleno, porque era esse a sua maior esperança, que ela vivesse E inclusive permitiu também que ela se tratasse e curasse do mal físico que padecia, as ditas pedras (nos rins penso eu).
Eu gostei, nem todos somos iguais e o comportamento sexual depende e muito da componente hormonal e de outros químicos do organismo, bem como da componente mental e psicológica, do sentir, caiu-se muito, nos tempos atuais, na abordagem do comportamento cultural relativo ao sexo, os tabus, as opções, os gostos, enfim, e o comportamento sexual natural / orgânico, a mescla do físico e psicológico, parece que já nem existe, e no entanto é por onde começa quanto mais não seja... muito antes de racionalizarmos o que queremos desejamos, só que não se chama desejo (hei-de ler sobre isto mas creio que o desejo é cultural, certo?).
Portanto, fico a pensar naquela teoria de que a mente controla o corpo e diria que em certos momentos o contrário é igualmente verdade e que em jeito de bom equilíbrio devíamos cuidar para que ambos se coordenassem em uníssono. Para além disso em cada pessoa é diferente, há que descobrir em quê, e quando a mente controla o corpo e em quê, e quando o corpo controla a mente em quê, não vai ser igual em tudo, em todas as alturas, e em todos nós, e depois é tudo uma procura de encontrar o yin e yang do corpo e da mente. É fácil dizer, muito difícil fazer.
