Sobre uma outra forma de filmar o tempo, a lentidão, tem sido uma característica, ou já era e só agora começo a prestar mais atenção, em muitos filmes.
Trata-se de uma lentidão peculiar... e como coincidiu em vários filmes, que vi (quase) seguidos deu para reparar melhor...
Não é aquela lentidão de filmar a mesma árvore durante meia hora, a que poderíamos chamar de "lentidão de estilo", ou "lentidão artística", que por muito que pretenda aproximar o cinema do "tempo real", acaba por ser cinema e este enquanto arte da "velocidade", ou seja, do tempo, vale muito pelo modo como se filma e se dá a ver, e não só pelas opções técnicas, como pelas conceptuais, o que nos quer transmitir o realizador? A árvore quando nos é mostrada está dentro do máquina, num determinado enquadramento, numa determinada perspetiva, e foi escolhida em tudo, até no dia e na hora em que foi filmada. É o olhar do realizador sobre a árvore que me é dado a ver, é o tempo dele a condicionar o meu. Mesmo que seja uma árvore frondosa (uma palavra que adoro) e mereça a pena ser vista demoradamente não lhe sinto a sombra ou a luz por entre a folhagem sobre os meus olhos e pele, apenas imagino com a ajuda da imagem que me é filtrada de uma determinada maneira.
Sobre os filmes que vi mais recentemente, onde me tenho deparado com esta lentidão, o First Cow e o Nomadland têm algo de documentarista, embora não sejam, há um equilíbrio grande entre a narrativa pessoal e a narrativa do documentário histórico ou de arquivo, o Mal de Pierres também tem essa ligação entre a narrativa pessoal e a da história mas a força maior pende para a pessoal, embora eu tenha realmente feito uma leitura sobre a sua condição psíquica, se calhar também é a mesma abordagem de tempo pelo mesmo motivo, talvez sejam um novo género cinematográfico.


