segunda-feira, 19 de julho de 2021

Ritmos - Contratempo ou lentidão

Sobre uma outra forma de filmar o tempo, a lentidão, tem sido uma característica, ou já era e só agora começo a prestar mais atenção, em muitos filmes.

Trata-se de uma lentidão peculiar... e como coincidiu em vários filmes, que vi (quase) seguidos deu para reparar melhor... 

Não é aquela lentidão de filmar a mesma árvore durante meia hora, a que poderíamos chamar de "lentidão de estilo", ou "lentidão artística", que por muito que pretenda aproximar o cinema do "tempo real", acaba por ser cinema e este enquanto arte da "velocidade", ou seja, do tempo, vale muito pelo modo como se filma e se dá a ver, e não só pelas opções técnicas, como pelas conceptuais, o que nos quer transmitir o realizador? A árvore quando nos é mostrada está dentro do máquina, num determinado enquadramento, numa determinada perspetiva, e foi escolhida em tudo, até no dia e na hora em que foi filmada. É o olhar do realizador sobre a árvore que me é dado a ver, é o tempo dele a condicionar o meu. Mesmo que seja uma árvore frondosa (uma palavra que adoro) e mereça a pena ser vista demoradamente não lhe sinto a sombra ou a luz por entre a folhagem sobre os meus olhos e pele, apenas imagino com a ajuda da imagem que me é filtrada de uma determinada maneira.

A lentidão a que me refiro é outra, é a "lentidão da reflexão", uma "lentidão do respirar", mas sem pensar no "breathe in and breathe out", sem procurar um estilo é mais intuitiva eu diria, quando os pensamentos vêm e vão e se ligam ao acaso mas não é acaso porque estabelecemos associações, é portanto menos fixa numa fórmula, menos racional e/ou obsessiva, é uma lentidão enquanto a vida / os acontecimentos fluem... porque muito acontece mas é como se o realizador considerasse tempo para tudo acontecer, sem pressas e sem atropelos, e mesmo que haja algumas sobreposições de acontecimentos (o "normal" da vida) todos têm também o seu espaço próprio para acontecer, o seu momento singular, enquanto o plural se orquestra. 


    Nomadland, dir. Chloé Zhao (2020) 

A mim custa-me um bocado a adaptar, dá imenso sono, há qualquer coisa de zen, não é por ser aborrecido mas meditativo. Por um lado vai mais ao encontro de um ritmo de ação e não de observação, por outro lado é como espectadora, a observar, que me enquadro, dentro daquele retângulo, naquela composição, com aquela narrativa, e nós não fazemos parte, estamos a ver por fora, e sabemos. Faz-me pensar na diferença entre o TaiChi, que é meditativo mas é movimento externo refletido em pausa interna, e a Meditação, que é movimento interno refletido em pausa externa.


    Mal de Pierres, dir. Nicole Garcia (2016)

Sobre os filmes que vi mais recentemente, onde me tenho deparado com esta lentidão, o First Cow e o Nomadland têm algo de documentarista, embora não sejam, há um equilíbrio grande entre a narrativa pessoal e a narrativa do documentário histórico ou de arquivo, o Mal de Pierres também tem essa ligação entre a narrativa pessoal e a da história mas a força maior pende para a pessoal, embora eu tenha realmente feito uma leitura sobre a sua condição psíquica, se calhar também é a mesma abordagem de tempo pelo mesmo motivo, talvez sejam um novo género cinematográfico. 


    First Cow, dir. Kelly Reichardt (2019)

Contratempo, é afinal uma outra reflexão... e que acabou por não surgir neste post...