sábado, 30 de outubro de 2021

Querida Agnés

Ora, aqui vai uma nova rubrica, dedicada a malta do cinema e dos livros, porque é com o que vou estando mais envolvida, vendo, lendo, entretendo, entretanto, pensando, absorvendo, refletindo, portanto com mais frequência mesmo que sem obrigações, nem nenhum tipo de prática profissional, semi-profissional ou sequer amadora. 

Ainda não tem nome a rubrica, ou talvez tenha, mas vou pensar melhor.

Serão cartas, ou em jeito de... comunicações dirigidas, pessoais, interações com excertos de textos, imagens, cenas, de filmes ou de livros, embora a minha vontade é que tivessem mesmo resposta, de alguns a quem se dirigem, infelizmente muitos já não poderiam responder e outros, quase seguramente todos, não se dariam ao trabalho... de qualquer maneira mesmo que não saibam também eles comunicam comigo e não me conhecem pelo que não fazem ideia do que eu teria para lhes dizer e talvez nem se interessassem ou interessem, de qualquer maneira aqui está, um bocadinho de mim a partir de vós.

Comentário paralelo (voz off): Estou sempre a inventar novas rubricas e depois não dou continuidade a nada... organização e confiança andam de mãos dadas, no meu caso, às vezes, falha uma, outras a outra, é um dueto difícil, este, na minha vida - mas não só.

Começo pela Agnés.




Sans toit ni loi, de Agnes Varda, 1985









Querida Agnés,

Escrevo-lhe para lhe dizer que discordo do que aqui leio / vejo e não é a primeira pessoa a comunicar tal "enunciado". Na minha perspetiva isto é comparar "o cu com as calças", peço desculpa mas de facto estas frases "feitas" como se fossem "grandes verdades" são do mesmo género dos provérbios ou dos rústicos dizeres populares, talvez sejam os novos provérbios - cada vez há mais gente a dizê-las, mas por outro lado não são, porque têm pouco da modesta sabedoria popular e muito da arrogante sabedoria intelectual. O que é certo é que este filme não conheço e fiquei com vontade de conhecer... até porque, do que lhe conheço, este pequeno excerto nem me pareceu seu... mas sendo deve ter algo mais, que aqui em dois "takes" não aparece!

A mim estas frases soam mais a limite de horizonte do que a simplicidade de observação, pois querendo ser para todos tornam o horizonte nublado, ou seja o que é de cada um é de cada um mesmo que haja mais idênticos não é possível generalizar nestes termos. 

Neste caso, como consegue comparar alguém sem opção com alguém que tem pelo menos duas opções? Nunca será a mesma coisa nem parecido. A não ser que se explique em que é parecido, só aí se verá que os casos "gerais" afinal são mais de metade "particulares". E portanto, o que quer dizer com isto?

Estar sozinha/o é diferente de estar só - é quando queremos ou precisamos de estar com alguém, mas estamos sozinhos, que nos sentimos sós, pois não é uma questão de opção mas de impossibilidade. É duro se queremos estar com alguém em concreto, que até pode ser um ser imaginado, que não existe, ou o alguém de um sonho ou de um desejo, que até existe mas não está ao nosso alcance, ou o alguém que já morreu, ou o alguém que é de outro, ou o alguém não quer estar connosco, ou o alguém quer estar connosco mas não da mesma maneira que queremos estar com ele, etc. etc., haverá concerteza muito mais hipóteses, como vê, está-se a generalizar o quê?

E um casal solitário o que quer dizer? Alguém que é casal mas que dentro do par se sente só? Um casal afastado de outros, ou seja distantes de outras pessoas, isolados na sua cumplicidade e intimidade de casal, como se fossem dois em um e sem mais ninguém?

E a diferença entre só e solitário, qual é aqui? O "casal" é um único ser de duas cabeças ou um par de dois seres individuais? 

Sentimo-nos sós quando precisamos de alguém e não há ninguém, temos de estar connosco e só connosco e às vezes sentimos que não somos suficientes e temos de fazer por ser, e podemos ter outras pessoas na nossa vida, como um companheiro/a ou uma família ou amigos, mas naquele momento ou situação especifica não há ninguém que nos valha, é isso que é duro. Todos passamos por isso em determinados momentos da nossa vida... mas há quem passe mais vezes ou esteja mais vezes nesse estado então fica com a situação de que é uma pessoa só. Não interessa se está solteiro, casado, viúvo...

Estamos solitários quando temos momentos só nossos mas não somos sós e é de louvar! Quantas vezes até queremos e não conseguimos isso, pelo ruído dos outros, pela quantidade de tralha que nos rodeia, porque temos obrigações e de interagir em montes de situações, mesmo que não apeteça. Agora já me parece estranho que eu me isole sem ser por vontade própria, pode acontecer que às vezes eu me isole tantas vezes que quando quero interagir até parece que já não sei ou não consiga, mas isso é como tudo, há que ir tentando... e claro, aí sim, há uma ténue fronteira entre esse estado, de passar de solitário a um ser só... E não é fácil falar disto ou explicar.

Mas, sobre ser um casal, vai-me desculpar, mas isso é uma outra coisa!

Aproveito para dizer que ainda que discorde desta pequena anotação gosto muito do seu trabalho e vi um documentário sobre a sua vida e fiquei com vontade de ver mais filmes seus.