terça-feira, 13 de março de 2012

aconteceste-me...


estar sozinho [num veleiro] sobre o rio sem margens. Aguentas-te?

Um rio sem margens... amontoados de pedras por baixo, sempre mergulhei [sem pensar nas cobras]. Aguentas-te? Depende do veneno e do antídoto, dizem. A primeira vontade que me ocorre costuma ser a da frescura, a da beleza dos verdes azuis e de abrir a boca à água doce. Do estar. Do dentro e fora. Esqueço as cobras, as horas, só...
o queixo treme quando se faz demasiado tempo,
os lábios roxos, os dedos enrugados.
Mas fico confusa com o aguentar, não é isso estar à margem? Vive-se, vai-se. Nunca andei de veleiro. Sobre o rio. Se abrir os olhos à transparência sim, parece que caminho sobre as águas. Contracorrente ou embalada pelos peixes a picarem-me com beijinhos os pés. Por cima, falam-me os tira-olhos que afinal são libelinhas, das quais soube parentesco. Deixam a pele, uma espécie de casca, depois de serem larvas aquáticas, e aí,

leves do peso das máscaras húmidas,
batem asas e cintilam à luz do sol e do luar.
Aguentamos demasiado. Assim me parece todo o demasiado, o ficar preso à margem. Assim se não houver um rio junto à margem onde possa mergulhar escavarei um buraco até encontrar o caudal subterrâneo ou então, nos dias mais frios, esperarei que a neve derreta e cresça um rio, 

Sobre o rio deixarei a casca e subirei às árvores mais altas.

in escrito e fotografia: © cristina de oalves