| lembro-me: quando as esferográficas me faziam buracos/calos nos dedos da força de as agarrar enquanto escrevia para que não escorregassem das linhas; de deixar de gostar de escrever em cima de linhas e de me apaixonar por cadernos pretos de folhas lisas; de gostar imenso das canetas de tinta que se diziam permanentes e de se transformarem em manchas de pintura abstracta debaixo dos pingos que me caiam das mãos e de delas ficar só com o bonito dentro da gaveta que ninguém percebia, nem eu; da minha alegria quando por volta de 1989 descobri canetas de borracha e outras com pontas de borracha que absorviam a água antes de ela ser escrita no papel... lembro-me: que vieram os computadores e tive de começar a usar óculos e de ter dias de olhos tão embaciados que a poesia era desligar tudo e ir dar uma volta no parque a descobrir as estátuas até encontrar o rapaz de bronze... lembro-me de ti... e da minha e da tua e da nossa poesia... lembro-me: quem fui, quem sou... mas não me lembro quem quero ser... lembro-me: que quero sonhar e caem lágrimas... entre sorrisos também me lembro das outras mãos espelho [reflexo sombra] e de limpar as lágrimas e o sonho é continuar a tocar a loucura, entre a poesia, a vida, as lágrimas e os sorrisos
© cristina de oalves (escrito e fotografia)
Publicado no grupo Sintonia (facebook) a 15 de Março de 2012
