seguindo o corredor, abrindo a porta do quarto
dentro do muro, um baloiço, no jardim carregado de aromas, muitas laranjas, margaridas, acácias, pássaros
uma fonte para dar de beber à sede, um banco de pedra
fora, uma rua, atravessa a janela, abre ligeiramente a cortina, um transeunte, a rua e entrentanto uma praça, passeia, lisonjeia, ele, sorri às senhoras, meninas desconhecidas, um ou outro momento, elas aproximam-se também, é uma de cada vez e na outra mão a outra, a que não se vê na obscura transparência dos olhos galantes
lá dentro um riso - de rapariga bonita
demora um pouco mais à janela, tarda demais a fechar
lá dentro um riso
que a pouco e pouco se extingue.
E agora um coração em fúria, o dela
Contra quem mostrou não ter nenhum.
E continua
no dia seguinte uma parede, uns azulejos do marquês, ao fundo um amarelo ocre
algumas memórias embaciadas, ainda
um espelho, arranja-se, despenteada, um sorriso forçado,
um caderno, um lápis, uma caneta de tinta preta,
uma brochura de teatro
um ano de canções.
A gritaria fúnebre havia de estragar o esplendor - e a via dos Cavalos. O chão a perder de vista.
escrito © cristina de oalves | fotografia © Carla Henriques
