domingo, 8 de dezembro de 2013

O prazer do texto

A linguagem é uma pele: esfrego a minha linguagem no outro. É como se tivesse palavras ao invés de dedos, ou dedos nas pontas das palavras. A minha linguagem treme de desejo. A emoção de um duplo contacto: de um lado, toda uma actividade do discurso vem, discretamente, indirectamente, colocar em evidência um significado único - ‘desejo-te’, e libertá-lo, alimentá-lo, ramificá-lo, fazê-lo explodir (a linguagem goza de se tocar a si mesma); por outro lado, envolvo o outro nas minhas palavras, acaricio-o, roço-o, prolongo esse roçar, esforço-me em fazer durar o comentário ao qual submeto a relação.
Roland Barthes





Diz o crítico literário Eduardo Prado Coelho (1988: 10-11) que traduziu e prefaciou o livro:  
"A leitura de ‘O Prazer do Texto’ pode provocar, pelo menos, dois tipos de reacções negativas: por um lado, será possível que alguns suponham que se tratam de pequenos ‘devaneios’ literários, em que o autor, a partir de alguns motivos da teoria estética, tece algumas considerações mais ou menos líricas em que certo número de ‘ ideias’ relativamente conhecidas surgem sob roupagem nova; por outro lado, outros poderiam ceder à fascinação que a qualidade muito evidente deste texto não deixa de exercer, e deixarem-se ficar por aí, seduzidos, sim, mas incapazes de vislumbrarem o alcance teórico da obra. A isso convirá opor uma afirmação frontal e neste momento fortemente dogmática: o prazer do texto é muito provavelmente uma das obras contemporâneas mais importantes no campo da teoria da literatura. Isto, claro,  para um leitor atento, que saiba deixar repercutirem-se em si as múltiplas indicações que o texto tem o cuidado de suspender no instante preciso em que elas se poderiam começar a conceptualizar.” 

“Texto de prazer: aquele que contenta, enche, dá euforia; aquele que vem da cultura, não rompe com ela, está ligado a uma prática confortável da leitura. Texto de fruição: aquele que coloca em situação de perda, aquele que desconforta (talvez até chegar a um certo aborrecimento), faz vacilar as bases históricas, culturais, psicológicas, do leitor, a consistência dos seus gostos, dos seus valores e das suas recordações, faz entrar em crise com a linguagem.” (Barthes 1988: 49)