quinta-feira, 9 de janeiro de 2014


há uma mão tempestade atrás de cada poema | talvez nem seja só uma mão | talvez se juntem duas a duas | há a mão poema e a mão que acena ao vento | a mão que aperta a garganta a mão que solta as cordas | há a mão fria que gela o arrepio e a quente que verte a água | a que segura o leme e a que permanece o liquido que perfura o casco | e sem cerimónia a mão degolou um pé | e mudou de direção a proa | na espuma branca do rebordo | pendurou uma mensagem || anotou assim: amanhã estarei no mar alto, segue em frente ou tanto faz que terei ido contra a corrente | pensei em contraditar a mão decisória escrever no reverso do bilhete mas tremia-me a outra mão | ri-me sem sentido e ouvi o eco das escarpas | a mão doía-me o oceano em todo o lado | assustei-me e em defesa degolei um pedaço de mar e caiu-me um braço já sem riso nenhum | de qualquer maneira ainda fui a tempo de ver que estava viva e apenas tinha naufragado | a mão, só uma, teve assim tempo de dizer um quase adeus à outra.

© cristina de oalves
imagens (aguarela e guache sobre fotografia): dan estabrook, at sea, 2007