este corpo que tantas vezes sai fora do meu,
como se chegasse de longe, ou nem me pertencesse,
parece dizer bom-dia às minhas mãos.
endireito-me à sua presença, olho-o e olho-me
como se no espelho se gerassem sucessivos reflexos
cada vez mais volúveis.
estou à espera que entre nestas palavras a qualquer momento,
que fala aqui um chão, um tecto,
qualquer superfície plana que dure
o tempo suficiente de lhe ser vida.
estou à espera que um corpo venha e diga,
- dá-me as tuas mãos,
e as leve dentro das suas,
como o sangue do que agora escrevo,
ainda fresco,
pronto a ser do seu próprio sangue.
estou à espera que uma destas mulheres
me visite com um frasco de vidro,
e dentro esteja a solução,
dentro da mulher, digo,
porque o frasco está vazio,
nenhuma droga podia aumentar mais o que sinto,
e diminuí-lo seria capaz de me matar.
às vezes, confesso, e ainda sem nome como os outros,
é um corpo másculo que vem, turvo e apático,
de proporções indefinidas, a voz de um cego,
fria e escura como se proviesse do mais fundo abandono,
fica por momentos,
faz do tempo que está um espaço meramente imaterial e gasto,
como se nunca chegasse a existir,
ou fosse o que costuma chamar-se de metáfora.
olha-me desconfiado, como se nenhuma das que sou lhe servisse,
com sorte escreve meia dúzia de cartas, quase sempre sem nexo,
impróprias, nulas, capazes de serem fumo e cinza num instante.
estou à espera que uma das de mim o mate,
com as minhas mãos, com o meu sangue,
até que o homem não passe de uma vã memória sem a face.
de alice macedo campos, in a mulher sus.pensa
imagem (fotografia): elle moss
