Não te inquietes. São muitas as sarjetas
de serviço para neo-melancólicos
laureados e escritores vivos de segunda.
O que faltou, noite após noite,
foi exatamente a poesia.
Isso de que uma ou outra canção
te consegue ainda falar. Vidas que não
tocaste ou não querias. Mas deixa estar:
nem sequer um remorso, agora,
um simples sussurrado grito. Paras a canção
(não era tua), acendes um cigarro e esconjuras
a certeza de outro dia. O resto é felicidade
concreta, geral, uma coisa já sem lume
que deitas fora aqui, num poema reciclável, enquanto
a morte e mais ninguém te encosta o lençol ao pescoço.
Manuel de Freitas, in A última Porta
imagem (emulsão fotográfica sobre tela): Robert Heinecken, Different Strokes, 1970/97
