queria ser poesia mas não sou poeta.
queria dizer um verso mas encontro-me do avesso.
creio que passou por mim uma borboleta
e no caos da desordem do outro lado
sem querer
nasceu aqui alguém.
confesso que às vezes não sei o que digo
e menos sei o que escrevo
mas lembro-me de ti quando dobro os braços.
e é essa a dobra onde te guardo.
e olho
observo
e espero de mim uma mudança
de tom
suave
no rosto
encostado à frescura da manhã,
depois das mãos
que amam o teu corpo no meu,
no calor da noite
existe um outro retrato num outro momento
de um mês de março a chegar ao fim.
rasgo as páginas do calendário,
como se me despisse.
de tempos a tempos (...)
os meses foram feitos para desejar
a mudança dos dias
e as horas para sonhar
os amantes, os que se amam, no desejo das noites
antes de adormecerem
os beijos os suspiros os gemidos,
são a nossa história poema entre nós.
vou acrescentando uns pontos finais, umas vírgulas,
uns pontos finais, uns parágrafos.
aprendo
lenta
a escrita que é a mesma.
os anos trespassam
também os poemas
translúcidos
transparentes,
o espaço equilíbrio entre duas almas.
a que conheço e a que penso que conheço.
a que me sei e a que me esqueço.
um segredo, esta natureza.
as borboletas também não sabem que são borboletas
e o meu jardim nem se lembra que no próximo mês
é abril.
mas vivem.
e eu deixo-me estar
quieta. e viva. também
que nome
a dar ao dia em que te quis
a ser poesia
mesmo não sendo poeta,
[talvez] sejamos poema
numa simétrica assimetria
que se completa
entre as linhas
(...)
na transformação
dos dias numa noite
das noites num dia.
© cristina de oalves
imagem (fotografia): Haley Jane Samuelson, Mirror, 2009
