quarta-feira, 12 de março de 2014

(...)
recebi uma carta ou seria um cartão de visita
de tão breve e tão perto a imagem poderia ser também um postal
dessas bonitas paisagens
de “aqui estive” mas não me lembro
ou fui eu a pressa e nem reparei se vinha com remetente
ou seriam pensamentos soltos a andar pelo ar
o que importa
quis o destino
ficará por saber
[talvez no indefinido dos nomes, dos números e dos ponteiros do relógio em capicua, do ser]
a iluminar os meus fantasmas sobre a memória do tempo presente
[alguma coisa também no indefinido por conjugar, do estar]
escrevo-lhes agora a saber a vida que sou eu
e escrevo assim, anotação de um lugar numa data a soar a antigamente
também eu reencarnação fantasma de mim própria
em que 100 anos foram ainda há dois dias que os ouvi dizer [outra vez]
mas hoje falo de dentro para fora do tempo aos meus olhos, sem matéria morta,
e nem os lugares são apenas o aqui
nem as pedras são imóveis na lavrada terra das estações
nem as árvores imunes ao crescimento das raízes para lá dos muros
e nem só mas também os translúcidos momentos de trazer por casa são estes
ténues mas presentes, sem nada a esconder do que se esconde
como as cortinas
que dão para os quintais dos fundos repletos de pólen ou de pó
empoeiradas transparências vegetais de tecido ou papel a esvoaçar
nos espaços abertos da casa
pressentidos os sons da intuição dos poemas
têm dias de serem ruídos da vizinhança aflita com o mundo vivo
e têm dias de serem o silêncio profundo de um mundo místico
misteriosa experiência, etérea, a vida como a morte
vislumbre transformado
como o rodar dos pulsos até ao ponto em que o relógio salta, para,
o gesto de um instante das palavras
[sim, eu sei, faz me falta a pontuação]
para não dizer mais nada e depois retomar o sentido cardinal
penso a oriente onde nasce o sol
e deixo-me estar um momento
mês de março acabado de nascer
prefiro janelas e o ar que me devolve o sopro das folhas despertas pela primavera
frescura renovada
[como esperar as palavras se elas estão em mim antes de as saber?]
gostava de me sentar e de parar o tempo inquieto na luz da manhã
enquanto escuto lá fora o canto dos pássaros
gosto de os olhar devagarinho
e quando chove gosto das gotas pelo vidro
e dos sons que tremem na terra ao acordar
mas o que gostava mesmo era de os trazer, os ouvidos, os olhos
à vida pelo sopro da minha mão
fora do ruído do mundo e dos meus gritos embalsamados pela dor
descoso tudo
redesenho o espaço
escrevo como se fosse a primeira vez das palavras
e linha a linha permito me que a mão escreva o resto da lentidão de uma hora apressada
passei dois dias inteiros à espera de te ver
[tudo se repete, talvez]
(…)
e assino no fim
o que fica por (con)firmar:
o dia de hoje acaba de (re)começar
[outra vez]

© cristina de oalves
imagem (fotografia): Alfred Stieglitz