segunda-feira, 27 de outubro de 2014

(...) escrevo o que me ocorre na falha do poema, na falha de deus e de homens sábios. entre todos os que as dizem, as escrevem, as lêem, e entre os outros também, os que inventam a língua e os prazeres sem tradução. aceito o meu estar dentro e fora disto, entre duas linhas paralelas, no estado dos livros de caligrafia, rasurados e amarrotados pelo excesso de dedicação. aceito ter a língua cansada e os dedos gastos de incompreensão. mas tento. Letra a letra, vagamente, perdido o sabor do saber de cor o abecedário como uma canção inútil que busca a a certeza da escrita ser irmã da fala. 

E salto um parágrafo e às vezes uma vírgula esquecida e um ponto final que não quero

E penso na morte e nos pássaros. Como se rimassem. Como se cantassem em silêncio a vida dos poetas vestidos de negro, ou talvez de branco, anulada a cor dos lábios e os olhos se fechassem. Como se a luz fosse a manhã que acorda muda, ou a escuridão a noite que grita o sono que não vem.

As contradições são o meu tempo mais preenchido. Nos tempos livres procuro destrinçar os nós mas canso-me tanto, de tombos, de queixas, entre outras linhas, fios, amarrados, pendurados, repuxados, nas pernas, nos braços, nos cabelos. e ando nisto, aos tropeções e desajustes, desde que me lembro de ser. entre outras coisas e tantas vírgulas repentinas que se lembram de aparecer ansiosas, penso no que fui e no que sabia, ou achava que sabia

Hoje não sei (...) até isso morreu, o tempo de soletrar a paciência dos versos. De os dizer baixinho, como quando se cola a palma da mão à boca deixando um ligeiro bocejo esconder-se no sono da pele. e se eu soubesse (...) Hoje aprendem-se palavras, palavras velhas com letras mortas substituídas por palavras vãs cheias de pompa a dizer a mesma coisa e a ser coisa diferente. ou, palavras desaprendidas a ser coisa igual e a dizer coisa diferente. a palavra coisa continua a dar para tudo e para nada e para o torto em linhas retas. a palavra coisa, o que transforma o ser em não ser.  

Transformam-se os diários em recados e os pombos em ecras digitais. E tudo, a terra, as árvores, o mar, os peixes, os frutos e tudo o que é belo e tem cheiro, tudo o que é o que é, sem razão, sem perfume nem verniz, nem cabelos pintados, nem roupas de cerimónia transformamos em nada. Tudo o que não se inventa porque existe. Tudo o que não se quer ver que existe e se despreza. Tudo que é tudo ou nada. Então, ficamos vazios. Buracos ocos a fingir vida, a fingir prazer e dor.

[...]

se eu pudesse cortava o vazio e preenchia-o daquele tudo que é tudo ou nada de alguma coisa. como quem nasce ou morre da vida. daquele tudo dos que acreditam que antes de si havia outro, outros que também eles achavam ser, letras à procura de palavras e palavras soltas à procura da vida, que eles ousaram viver. daquele tudo feito de morte e de pássaros, mas que existe, e é luz e escuridão e não se perde, porque se sente, sente-se porque se é

[se eu soubesse]
...
seria

© cristina de oalves
imagem (fotografia): Les oiseaux vous poursuivent, de Paul Nougé tirada do livro " La Subversion des images"