domingo, 1 de junho de 2014

As reticências de um dia ter tempo...

Aqui estamos
nem sempre juntas
e depois o tempo livre, os livros, ele e o poema...
[o tempo desfasado]
[o tempo de ler a escrita]
a realidade obtusa
os enganos quando
finjo fechar os olhos

e não vejo
o fumo
na boca
a saliva
de palavras (des)necessárias

sem o sabor
dos dias e das horas livres
que não tenho,

as frases ininterruptas,
esses cigarros que passam no relógio,
e já nem conto
os meses
com os dedos
nem os anos
que já não são muitos os que sobram
e poucos são os que sobejam
[desenho a lápis com a fala dos gestos a distração que me ocorre]

se me pergunto: quando faço uma pausa?
pois faltando os pontos finais, os sinais, a pontuação
responde a pressa: depois.

Preciso reaprender a respirar
o cheiro, 
mas foi por pouco
o que li algures
não eras tu nem eu.
Assim contive(me).

Ao que sublinho
marco na agenda
reescrevo
para ler na primavera
para ler no verão
as minhas as tuas as de todos 

as estações
de luz proferida
ou preferida depois de sussurrada ________
ao ouvido nos lábios outra pergunta

do lado de lá
já chegou?
[a demora]

a falta do sabor de saber esperar
a reviravolta
das palavras soltas
por dizer
ao vento
na praia
sem nome
como aquela saudade
que guardo onde enterro
os pés no mar
fixos na areia
[também retenho ideias entre parêntesis]
nesta difícil arte
de aprender a paciência
como uma autêntica profissão “criativa”

entre as aspas...
as reticências de um dia ter tempo.


E eis que surgem minutos,
ai, se não soubessem saberiam, a ansiedade do que é e se desconhece,
o viver indefinido dos dias, dos meses, doa anos,
da poesia para ninguém, nos cadernos rasurados,

a falta de tom do ritmo de quem fala sozinha
a solidão,
de não saber calar pensamentos,
dos momentos em que não (me) encontro nem nos outros
destes
escritos descompassados em sufocos
ou soluços
de tempos em tempos
no tempo morto,

mais morta também que viva,
de quando sou o que não consigo ser
e então
deixava de escrever pouco
e não escrevia nada
até interligar

tudo
depois de dizer
o tudo que me apetece
neste sentido de sentir
menos a aflição
de viver
como se não fosse
mais do que um momento
aqui estamos

e o tempo livre, os livros, ele e o poema...
deixei de fumar mais uma vez.

...
imagem: no filme de Godard - Pierrot le Fou, Anna Karina