sábado, 18 de janeiro de 2020

Todos os anos menos tempo

Muito tem acontecido e pouco tenho aqui vindo, é o tempo que nos esgota a vida? ou a vida que nos esgota tempo? o tempo como matemática, tal como a vida, contas feitas ao ar que respiro, e eu direi que tenho vivido intensamente, por períodos irregulares, enfim, digo-o pela pressão no peito e sem perceber de matemática nem de oxigénio.
E, em especial, este ano que passou, foi um sufoco grande, ao ponto de parecer que ainda é o mesmo, infelizmente, a intensidade, foi mais negativa que positiva, foi mais o peso que a leveza, o que me leva ao tempo como matéria, e não falo de rugas, falo das costas ligeiramente mais curvas, ainda não se nota, mas sinto.
Recordando as várias nuances de estar viva, eu direi que para além de estar mais velha (que é natural) estou especialmente cansada, foram mais os momentos de tempo limite e extra-limite, daqueles que nos levam a temer se conseguimos ficar vivos, do que os de descanso, esgotei-me de múltiplas formas portanto, o tempo foi-se e ainda assim sobrevivi-lhe, aliás estou em modo sobrevivência mas já com dias melhores, o balanço é contudo abstrato - porque permanece ainda muito a resolver e a esperar. O tempo de espera não é parado, a espera cansa, porque o tempo não espera, empurra-nos, e por vezes para bem longe da vida. Ainda aqui estar é portanto uma incógnita do tempo e da vida, mas sei que continuo para já a aguentar a espera e enquanto isso, mal ou bem, estou viva.

Frances Ha (2013), dir. Noah Baumbach