domingo, 15 de março de 2020

O amanhã será melhor

Já vi uns quantos filmes neste últimos tempos, como disse esse tem sido, por um lado, o meu melhor alento hipnótico, mas que por outro é também uma ponte com o real, não é portanto uma alienação, um não estar na minha vida, é pelo contrário um estar viva mas numa forma de concentração e de espera. Um filme permite refletir sobre outras vidas, outros temas, outros horizontes e em simultâneo estabelecem-se relações, fazem-nos sentir parte de um todo. O cinema é uma ficção mas o real está lá.  De alguma forma encontramos questões, respostas e sentimo-nos parte das emoções, dos sentimentos, é como se estivéssemos lá, dentro da cena, e aprendemos um pouco mais sobre nós e o mundo.

Os filmes que mais me dão essa sensação, de eu também fazer parte, “são várias histórias dentro de uma história”. Powder Blue é um desse filmes. Em português surge com o título O amanhã será melhor. Sim, este é um filme sobre sobreviver e esperança, esperança que as coisas mudem, esperança no fim, e depois logo se vê. Nem todos vamos ganhar uma viagem a Paris para duas pessoas mas todos ganhamos algo.


                                      Powder Blue(2009), dir. Tomthy Linh Bul


Sobre o director o nome não me disse nada... fui pesquisar, tem poucos filmes como director, mais alguns como produtor e outros como argumentista, nada de extraordinário e nada me parece já ter visto, mas fiquei com vontade de ver Three Seasons (1999), com o Harvey Keitel.
Em relação a Powder Blue gosto da cor, há de facto um azulado em várias cenas, mas há também um vermelho intenso, amarelo e verde, e gostei da forma como os actores são filmados, da proximidade da máquina de filmar, dos momentos em câmara lenta e da banda sonora. Para além disto também gostei dos actores, embora o Ray Lyotta não seja dos meus actores de eleição está muito bem neste filme. Fiquei foi surpresa quando li nos nomes dos actores (depois de ver o filme) Patrick Swayze! É o dono do bar de strip! Inacreditável  um pequeno papel secundário, mas completamente diferente do que imaginava do Patrick Swayze. Quanto a Forest Whitaker está igual a si mesmo, intenso, solitário, deprimido e forte em simultâneo. A Jessica Biel está fantástica, não sei  se é mesmo ela a executar as cenas de dança-strip mas o à vontade com o corpo é incrível, as cenas são super eróticas e de muito  profissionalismo, no sentido de rigor e de boa execução técnica quanto aos movimentos, sem perder uma certa naturalidade, como se fizesse aquele trabalho todos os dias. Para além disso ela é também uma mãe desesperada, com uma determinação em vias de falhar, e foi a única que me fez chorar, confesso, a cena da paragem de autocarro é linda e é o momento que nos permite soltar umas lágrimas, para sossegarmos a tristeza sabendo que ela ali está, a doer. E por fim, o actor Eddie Redmayne, e apesar de ter gostado muito da Jessica Biel foi ele o que mais me encantou, o único que não desiste e contudo o mais tranquilo. Vi um outro filme dele no outro dia: The Dannish Girl, outro papelão, muito semelhante o “tom do sorriso” do personagem.
Neste filme todos os personagens têm as suas vidas entrelaçadas, todos estão a passar por dificuldades, carregando às costas um grande peso do passado ou do presente, são sobreviventes, que se arrastam pelas ruas de Los Angeles ainda que a esperança vá surgindo ténue. E, tal como na vida, nem tudo acaba bem mas nem tudo acaba mal, a aceitação é uma aprendizagem pela sobrevivência e pela paz, não um cruzar de braços, nem uma opção pela superficialidade, não há como ser superficial quando se sente a vida com intensidade, e todos estes personagens sentem, muito. Não é um filme de grande citações, é um filme que flui mesmo que nos dê alguns soluços. Este é um filme de abraços. Powder Blue não é um filme para se falar da história, pelo que não digo mais nada, aconselho a ver (e a rever).


Sei que Los Angeles não é uma cidade que eu gostasse de visitar e este é mais um filme para me fazer  lembrar disso. Mas o Porto também não é uma cidade onde eu quisesse ficar a viver (pelo mesmo peso que sinto quando vejo filmes com Los Angeles) e no entanto cá estou. Ainda.

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