terça-feira, 27 de abril de 2021

Os sorrisos

 Uma das qualidades deste filme (Samba, dir. Olivier Nakache e Éric Toledano, de 2014) são os sorrisos, são eles que dão uma leveza notável a todo o filme. São naturais, são momentâneos, são sinceros, ao ponto de nos fazerem sorrir. Permitem tornar mais leve uma história cujo argumento envolve os graves problemas da imigração, do esgotamento mental, das vidas precárias (até quando se pensa que se tem uma vida estável).

O amigo brasileiro que é afinal é argelino está sempre com um sorriso na cara, "ser da américa do sul torna tudo mais fácil", na realidade é o sorriso, a leveza até das palavras, a simpatia, que torna tudo mais fácil. E no entanto não é fácil sorrir em situações difíceis, ser delicado quando somos mal tratados, mas vale tentar.

É lindo e suave o sorriso da Alice (Charlotte Gainsbourg) e do Samba (Omar Sy) e dá-lhes uma delicadeza que supera o difícil que é para eles a vida.


O momento do filme que me emocionei, quando estão a Alice o o Samba sentados, num daqueles cafés das estações de gasolina, o tipo de "cafés" que deprimem, e ela conta o que aconteceu consigo, não foi o que ela conta, foi a forma como se olham, foi o "olhar por dentro" tão mas tão difícil de encontrar. E mesmo aí lá surgem os sorrisos.
 Ter ainda assim sentido uma emoção mais forte, significa que a leveza do sorriso, não é não sentir, ou sentir menos, apenas nos permite aguentar de forma menos ansiosa a tristeza ou a dor. Ontem revi o filme e a emoção estava lá novamente, mas não se repetiu a lágrima, talvez por já saber, talvez por já ter sido alimentada antes por aqueles sorrisos e saber que no final a vida não vai ser cor-de-rosa nem encantada mas ainda assim dá para ter momentos de trocas de sorrisos. Sim, porque também é isso, não são sorrisos individuais, solitários, são sorrisos alimento de novos sorrisos. Talvez o samba (dança) também seja isso, aliás a dança em geral, não precisa de se fazer bem, de se saber bem os passos, de ter ensaios, é uma expressão natural, de cada um, com o que sente com a música, uma fusão de sorrisos, do corpo e dos sons. Não sou fã de samba, acho demasiado, não me sai natural nos gestos, como se fossem sorrisos forçados, mas sou fã de dançar.