segunda-feira, 16 de julho de 2012

da dor do do tempo que custa a passar - a vida que se vai perdendo pelo caminho

 _reclamações do adeus [nunca vistas por mim, morrem]
[mas o a_deus não se reclama] chora-se numa súplica desvairada 
tal dilúvio dentro que pego numa arca e me deixo ir na espera... 
e

espera-se que o coração regenera a dor... mais uma vez...

in escrito, "de pouca importância": © cristina de oalves




"Já não te amo como no primeiro dia.

No entanto continuam em volta dos teus 
olhos, sempre, estas imensidades que rodeiam o 
olhar e esta existência que te anima no sono.

Continua também esta exaltação que me vem 
por não saber o que fazer disto, deste conheci-
mento que tenho dos teus olhos, das imensidades 
que os teus olhos exploram, por não saber o que 
escrever sobre isso, o que dizer, e o que mostrar 
da sua insignificância original. Disso, sei apenas o 
seguinte: que já não posso fazer nada a não ser 
suportar esta exaltação a propósito de alguém 
que estava ali, de alguém que não sabia que vivia 
e de quem eu não sabia que vivia, de alguém que 
não sabia viver dizia-te eu, e de mim que o sabia 
e que não sabia que fazer disso, desse conhe- 
cimento da vida que ele vivia, e que também não 
sabia que fazer de mim.

Dizem que o tempo do pleno verão já se anun- 
cia, é possível. Não sei. Que as rosas já ali estão, 
no fundo do parque. Que às vezes não são vistas 
por ninguém durante o tempo da sua vida e que 
ficam assim ali no seu perfume esquartejadas 
durante alguns dias e que depois se deixam cair. 
Nunca vistas por esta mulher solitária que 
esquece. Nunca vistas por mim, morrem.

Estou num amor entre viver e morrer. É atra- 
vés desta ausência do teu sentimento que reen-
contro a tua qualidade, essa, precisamente, de me 
agradares. Penso que apenas me interessa que a 
vida não te deixe, outra coisa não, o desenvolvi- 
mento da tua vida deixa-me indiferente, não 
pode ensinar-me nada sobre ti, só pode tornar-
-me a morte mais próxima, mais admissível, sim, 
desejável. É assim que permaneces face a mim, na 
doçura, numa provocação constante, inocente, 
impenetrável."

E tu não sabes.



texto:  Marguerite Duras
pintura: Egon Schiele, Mulher Morta, 1910

publicado no grupo Sintonia sobre Pretexto (facebook) a 10 de Julho 2012