segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Como se nada fosse
nada mais que um mero pasmo súplica vista
adiante dos meus olhos
sendo essa a razão toda.

Estes olhos
de dias que passam
cabisbaixos são sete palmos debaixo da mão
os pés ao contrário
por (des)medido o sentido de perda
de uma não razão
o peito curva e sofre
ou sofre e curva 
a espinha dor sal  
estomago - respira e contrai-te
segura-te.

Os sonhos reconhecem-nos na sombra da lua 
os espelhos reflexos apagados do sol
vivos, só porque estamos vivos,
o sangue que ainda pulsa
a minha imagem ventricular
nem uma multidão
nem essa gente flutuante
é capaz de saber
o que eu sei, sozinha, tu sozinho, eu sei
avisto-te ao longe 
no som do ar de quem sobrevive.

Como se nada fosse
como se nada fossemos
sendo essa a razão toda
não há razão nenhuma.


© cristina de oalves

imagem (fotografia): coreografia “En atendant” e “Cesena”, de Anne Teresa De Keersmaeker