quinta-feira, 31 de julho de 2014

enquanto espero indecisa o nevoeiro crescente da neblina que se avizinha. e as palavras se atropelam na estrada. sem saber se indecisa por me decidir a paragem, se pelo nevoeiro que cai, indeciso também, deixando fugaz a paisagem da neblina, sinto-me no não lugar da perda. 

cheguei a um ponto em que o silêncio de adormecer o escrito me comove mais do que os caminhos que percorro pelas palavras. e tudo é vago e desfocado.

[mas] não consigo ficar quieta, nem calada no desassossego do vento. 

decido quanto basta o aflito do sussurro de uma tempestade, quando ela se avizinha, lentamente, atrás da densa bruma, tão imensa, que o conflito das chuvas contra os telhados e a terra se tornam inevitáveis, como pronunciar-me [quase] sem pontuação

e o talvez a crescer, trovoada que se afasta depois de chorar tudo
[mas] e continuo sem perceber da utilidade dos pontos finais nos parágrafos.


se o avanço da tempestade é ainda um eco impiedoso fora de mim...

no escrito do que escrevo
e reclamo
e faço perguntas a toda a hora como quem abana
e pergunto mesmo, questiono! exclamo também, muitas e muitas vezes e mais ainda para dentro.
fossem todas as decisões previstas nas linhas da palma da mão como previstas nos atrasos das viagens e não estaria aqui agora. ou estaria agora mas não aqui. estrada fora
salto pensamentos deslizantes.
e às vezes sei que encontro um outro ser vagabundeando mais lento, palavra por palavra, e sei que me encosto e adormeço sossegada, sem escrever mais nada, encontrando-me, enfim no que escrevo lendo-me mais tarde. |


© cristina de oalves

imagem (fotografia): Alex Howitt